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Rede Comuá participa de mesas no 12º Congresso GIFE

Atualizado: 19 de abr.

Por Mônica C. Ribeiro


De 12 a 14 de abril, a Rede Comuá participou do 12º Congresso GIFE (Grupos, Institutos, Fundações e Empresas), que teve como tema Desafiando estruturas de desigualdades.


No primeiro dia, a diretora executiva da Comuá, Graciela Hopstein, mediou a mesa Filantropia comunitária: mobilização de atores diversos para a transformação. Integraram a mesa Larissa Amorim, da Casa Fluminense; Harley Henriques, do Fundo Positivo – ambos integrantes da Rede Comuá -; Jair Resende, da Fundação FEAC; e Vinicius Ahmar, do Instituto Arapyaú.


Mesa mediada pela Rede Comuá durante 12º Congresso GIFE. Imagem: Divulgação GIFE


Na abertura da atividade, Graciela destacou a parceria que a Rede vem desenvolvendo com o GIFE desde 2018, no sentido de incidir sobre o ecossistema filantrópico pela adoção de práticas de filantropia comunitária e de grantmaking, e citou uma publicação, desenvolvida por meio desta parceria e que deve ser lançada neste ano, sobre como o investimento social privado pode fortalecer a filantropia comunitária.


“A filantropia comunitária está ligada a um conjunto de práticas. É preciso entender o papel que ela ocupa nos processos de transformação. Ela não é protagonista, acredita na potência das comunidades e chega para contribuir com processos já existentes nos territórios”, define Graciela.


A diretora executiva da Comuá apresentou o trabalho coletivo das 16 organizações membros da Rede, todas grantmakers, e a complexidade da filantropia comunitária que se plasmou no Brasil, que inclui fundos temáticos, fundações e fundos comunitários.


“Tem a ver com transferência de poder, como destaca o movimento #ShiftThePower. Mudança do eixo de poder. De acesso a recursos, de tomada de decisão. Para as organizações da Rede Comuá, é fundamental entender a desigualdade vinculada a acesso e garantia de direitos. Direitos são a chave para combater qualquer desigualdade”, contextualizou Graciela.


Rede lança Aliança de Fundos Territoriais


Larissa Amorim, coordenadora executiva da Casa Fluminense, apresentou o trabalho realizado pela organização, que completou dez anos em fevereiro.


“Fazemos debate sobre política e ação pública construídas a partir dos territórios. E partimos do ponto de que, de fato, não há só uma forma de fazer filantropia comunitária. Temos o Fundo Casa Fluminense, que se organiza a partir de edital público de apoio anual, tendo como orientador a Agenda Rio 2030. A filantropia que fazemos hoje está associada a políticas públicas, ao fortalecimento da democracia. Fazemos também apoios diretos para fortalecer estruturas de organizações.”


Larissa anunciou, durante a mesa, a constituição da Aliança Territorial, criada no contexto da Rede Comuá a partir da articulação de sete organizações membro: Tabôa - fortalecimento comunitário, FunBEA (Fundo Brasileiro de Educação Ambiental), ICOM (Instituto Comunitário Grande Florianópolis), Instituto Comunitário Baixada Maranhense, Redes da Maré, Instituto Procomum e Casa Fluminense. O objetivo é promover articulação permanente e troca de experiências entre organizações de base territorial, buscando desenvolver estratégias e refletir sobre os desafios de captação para essas organizações.


“As organizações da Comuá envolvidas nessa estratégia, em 2021, tiveram atuação em 174 municípios, doaram R$ 3,17 milhões e apoiaram 936 projetos. Para enfrentar as estruturas de desigualdade, o recurso precisa chegar na ponta, nos territórios”, define.



A relação da filantropia comunitária com os diversos atores


Harley Henriques, fundador e diretor executivo do Fundo Positivo, destacou a trajetória do fundo com o apoio inicial do governo federal e o pioneirismo do trabalho no combate ao HIV/Aids e a importância do que ele define como advocacy dialógico das organizações da sociedade civil - que deu origem a importantes políticas públicas e legislações como a lei dos medicamentos genéricos e a política de tratamento antiviral.


“O Fundo Positivo financia seis redes LGBTQIA+, que fomentaram a criação de leis como a do nome social, casamento homoafetivo e criminalização da homofobia. Temos cooperação internacional, doações de fundações e especialmente de empresas, mas sempre no viés da saúde ou HIV/Aids. O apoio de empresas não vem para a causa LGBTQIA+. Uma população que movimenta muitos recursos para o turismo no país e mesmo assim não consegue doações.”


Harley destacou que os desafios são muitos, e que só trabalhando horizontalmente será possível quebrar as estruturas de desigualdade. “A filantropia que fazemos não é de ninguém em específico. É comunitária, coletiva. É importante identificar que o protagonismo está naqueles que estão no campo. No Fundo Positivo, toda a equipe é composta por pessoas LGBTQIA+. Damos espaços de representatividade e poder a essas pessoas. É preciso garantir visibilidade.”


A Fundação FEAC, membro do GIFE, atua no território da cidade de Campinas, em São Paulo, tendo recentemente ampliado o território de atuação para a Região Metropolitana de Campinas. Jair Resende, Superintendente Socioeducativo da FEAC, informou o grande número de organizações sociais com atuação na cidade já na década de 1950, e como a Fundação reuniu esse movimento social no território usando patrimônio de doação de um filantropo.


“Nosso principal recurso está ligado ao investimento imobiliário. Usamos esse recurso que a Fundação já tem para captar mais recursos com outras organizações e empresas. Empresas sediadas em Campinas, em vez de criarem institutos e fundações, começam a trabalhar com essas organizações sociais que já atuam no território. Buscamos, como grantmakers, fortalecer essas organizações.”


Jair lembrou a agilidade desse arranjo para fazer chegar recursos à população em situação de vulnerabilidade durante a pandemia. “Somos o canal onde o recurso chega, mas temos uma rede de cerca de 100 organizações no território fazendo esse recurso chegar onde precisa chegar.”


O Instituto Arapyaú, também membro do GIFE, tem investido em fundos e organizações comunitárias. Vinicius Ahmar, gerente de estratégia para desenvolvimento sustentável do Instituto, destacou a iniciativa envolvendo o cacau no território da Bahia.


“O Instituto passou a atuar de forma estruturada, a partir de diagnósticos participativos no território, entendendo vocações e o que precisava ser fomentado. Em um desses diagnósticos, escolhemos a atuação na cadeia do cacau, por entender que poderia desenvolver um pouco mais a região.”


O cultivo de cacau na Bahia, pontuou Vinicius, é feito predominantemente por agricultores familiares no modo “cabruca” - cultivo em meio à Mata Atlântica. “A cadeia é viável economicamente, traz inclusão social e mantém a floresta no lugar. Vieram então, ao priorizarmos essa cadeia, desafios e alavancas para começarmos o trabalho. Mas não avançamos sozinhos. Fomos para a produção de conhecimento e fomento, em parceria com o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e outros, para fomentar e incubar a fundação de organizações chave para o território, como a Tabôa, por exemplo, e o Centro de Inovação do Cacau. Identificamos gargalos e fomentamos organizações e movimentos para que esses gargalos sejam endereçados.”


Vinicius destacou ainda a importância do uso estratégico dos recursos da filantropia para alavancar outros investimentos e a importância de ouvir o território e entender como é possível trabalhar junto em questões complexas.


“A ação é fomentar um território que é capaz de pensar soluções por ele mesmo. Estamos ali muito mais como alavancadores do que alguém que é necessário para o desenvolvimento local.”


Organizações da Rede Comuá participaram de várias mesas do Congresso


Além da mesa sobre filantropia comunitária, outros temas contaram com a participação integrantes das organizações membro da rede ao longo do Congresso, tais como filantropia latino-americana; grantmaking para superar desigualdades; democracia e interseccionalidades de gênero, raça e clima; inclusão produtiva e trabalho digno; desafios regulatórios do financiamento e da participação da sociedade civil.


Representantes da Brazil Foundation, Elas+, Baobá, Fundo Brasil, Fundo Casa e Instituto Comunitário Baixada Maranhense estiveram nas mesas promovidas para debater estes temas ao longo dos três dias de congresso.



Membros da Rede participam de diversas mesas durante 12º Congresso GIFE - Imagens: Divulgação GIFE


Uma das questões colocadas para debate foi se a filantropia está preparada para a equidade racial. Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, destacou três pontos a serem observados nessa resposta: a qualificação da análise que as instituições faz e como se posiciona a partir dessa análise; o tipo de critério utilizado para fazer as escolhas; e o propósito das tarefas que as organizações filantrópicas assumem.


“Precisamos ter nitidez para entender e separar se nossa motivação na atuação filantrópica se dá em relação a uma causa, um tema ou um público. Há uma confusão entre esses conceitos. Por exemplo, atender pessoas negras não é necessariamente enfrentar o racismo. Há uma confusão entre público e causa. Nem todo atendimento a pessoa negra é necessariamente enfrentamento ao racismo. E o atendimento a pessoas negras pode, inclusive, ser instrumento de manutenção do racismo. Isso não desqualifica o que cada uma das nossas instituições faz em relação a isso, mas é preciso que a gente reflita.”


Giovanni pontuou a importância dos critérios e a responsabilidade das organizações filantrópicas quanto a essa questão: “O doador exerce o poder. Nós enquanto instituições filantrópicas temos que ter responsabilidade, porque quando fazemos doações, e fazemos escolhas, interferimos no ecossistema e no ambiente no qual os movimentos sociais estão organizados. E precisamos respeitar isso. A escolha é inevitável, mas o que eu questiono aqui é a falta de transparência ou ausência de critérios.E aí fica um convite para as instituições que atuam na filantropia, para que se posicionem. Precisamos entender a filantropia como instrumento de financiamento da transformação social, mas que possa cumprir esse processo com a maior transparência possível. A transformação vai se dar pelo reconhecimento de que a força motriz dessa transformação é o movimento social negro.”


Amália Fischer, coordenadora geral do Fundo Elas+ Doar para Transformar, destacou, na mesa sobre democracia e interseccionalidades de gênero, raça e clima, que não existe democracia sem equidade racial, de gênero e étnica. “Essa democracia que temos está em crise, e a autocracia nos afetou a todas, todes e todos. E isso não aconteceu só no Brasil, mas também em outros países da América Latina e na Europa.Temos que estar abertos a esse neofascismo que está hoje no mundo e investigar porque ele não morreu. Somos produtos da colonialidade, e pouco se fala da Santa Inquisição, que queimou mulheres, indígenas, o povo que chamamos de ciganos, e são o povo Roma, durante muitos séculos. Brasil e México deixaram de assinar a Santa Inquisição no final do século XIX. Isso influenciou sim o século XX de alguma maneira. Isso tem a ver com a colonização, com escravizar as pessoas, até chegar aos dias de hoje.”


Outro ponto destacado por Amália é a forma como as mulheres usam o dinheiro, investindo nas comunidades e nos territórios. “Isso é uma forma de fazer filantropia. Vimos isso também na pandemia. Organizações que apoiamos usavam dinheiro como precisavam, mas apoiavam a comunidade do lado, porque não havia recurso. É importante que comecemos a falar de uma outra lógica da filantropia e do investimento social.”


“As mulheres estão sofrendo com as mudanças climáticas. Quando foram desabrigadas e seguiram com crianças para abrigos, sofreram violência doméstica. As mudanças climáticas têm consequências diretas nas mulheres e nas crianças, e temos que estar com o olho aberto para que essa interseccionalidade exista. Não pensem só na conservação e preservação do meio ambiente. Em todos esses espaços existem seres humanos e não humanos, e nós temos que apoiar quem está nos protegendo, e nesse caso são muitos dos povos originários no mundo”, concluiu.


Fernanda Lopes, d