Entre os desafios e a esperança, filantropiaS que resistem

Atualizado: há 5 dias

Por Luisa Hernandez e Jonathas Azevedo


Influenciar o campo da filantropia não é uma tarefa fácil. A reprodução de estruturas coloniais, do racismo, da misoginia, LGBQTIAfobia e de outras diversas formas de violência tornam a filantropia um ambiente que ainda pode ser muito excludente, em especial para minorias políticas. O Seminário Filantropia, Justiça Social, Sociedade Civil e Democracia da Rede Comuá, realizado nos dias 20 e 21 de Setembro em São Paulo, foi uma importante lembrança a todas as pessoas presentes, no entanto, que a filantropia também pode ser um espaço de resistência, luta, colaboração e, especialmente, esperança.

O Seminário foi um espaço pulsante, recheado por atores diversos do campo da filantropia nacional e internacional e de movimentos e organizações da sociedade civil, que atenderam ao chamado da Rede para refletir sobre os desafios da sociedade civil na garantia e ampliação de direitos de minorias políticas. O encontro reforçou ainda um chamado, especialmente à filantropia brasileira, representada majoritariamente pelo investimento social privado, a fortalecer seu compromisso pelo apoio ao fortalecimento das lutas de movimentos e organizações da sociedade civil, às agendas da justiça social e à democratização da filantropia. Pois, no atual contexto, a omissão de atores tradicionais da filantropia a essas pautas não pode ser mais normalizada.

Ao mesmo tempo em que muitas foram as reflexões realizadas em torno dos desafios da promoção das agendas de filantropia comunitária e de justiça social no campo, o Seminário também foi uma oportunidade única de alimentar a esperança, consolidar aprendizados e reconhecer a força do coletivo na promoção de uma mudança de chave no campo da filantropia. Ou melhor, filantropiaS, com “s”, como remarcado por Graciela Hopstein, coordenadora executiva da Rede Comuá, em sua fala de abertura. A partir de reflexões e debates sobre as práticas e abordagens das instituições, fundos e fundações comunitárias, de membros a parceiros da Rede, o Seminário evidenciou as filantropiaS que constroem no seu fazer, junto aos territórios, processos democráticos, que ocupam e rediscutem as relações de poder e que assumem seu protagonismo e potência na produção de conhecimentos e narrativas a partir de suas próprias vozes.

Certamente, o Seminário deixou evidente que há outros caminhos possíveis. E a conexão com as comunidades e territórios, um pilar da filantropia comunitária e da justiça social, é justamente a bússola que guiará essa jornada. Faz todo sentido, então, o chamado a oportunizar espaços e recursos para ampliar a participação das comunidades na construção das agendas e das narrativas produzidas nestes campos.

O convite ao campo da filantropia, então, está feito: é necessário ampliar a capacidade e o alcance das vozes das bases, periferias e comunidades, que historicamente têm se organizado e liderado práticas de colaboração, troca e ajuda mútua na busca do bem comum. Reconhecer e valorizar os conhecimentos e saberes, locais e ancestrais, destas práticas filantrópicas e incentivar a produção de narrativas, construídas por e para eles, é o que verdadeiramente demonstra o potencial transformador dessas filantropiaS - decolonial, colaborativa e comunitária - para promover novas práticas e apontar caminhos para o investimento social.




 

*Texto originalmente publicado no site da revista digital Alliance em inglês e traduzido para o blog da Rede Comuá: https://www.alliancemagazine.org/blog/between-the-challenges-and-hope-philanthropies-in-plural-that-resist%ef%bf%bc/



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