Produção de conhecimento, pandemia e os rumos da filantropia brasileira

Por Erika Sanchez Saez


Estaremos anos, quem sabe séculos, estudando e analisando o que nós, como humanidade, estamos vivendo desde o início de 2020.


Há quem diga que a pandemia marca a transição e o verdadeiro início do século XXI, assim como a 1ª guerra mundial estabeleceu e materializou o que significava estar no século XX. Há análises otimistas que enxergam esse período como uma possibilidade de transição para realizar as mudanças que tanto precisamos. Há também as pessimistas, que apontam essa como a primeira de muitas pandemias que virão e o agravamento de todos os nossos desafios comuns a partir dela, começando pelo aprofundamento das desigualdades em âmbito global e de forma assustadora no contexto brasileiro.


Preferências a parte, tudo é possível. O que passará com o mundo e no Brasil pós pandemia de Covid-19 é nossa responsabilidade coletiva e pode seguir em muitas direções. Essa perspectiva nos dá poder e ao mesmo tempo muita responsabilidade. Especialmente em um momento histórico em que a crise sanitária potencializa tantas outras crises e ameaças.

Para usarmos esse poder com a maior consciência possível é preciso produzir e sistematizar conhecimento que nos alimente, guie e inspire. Ainda que seja mais fácil fazer análises sobre o passado, a pandemia nos fez mais conscientes do que nunca de que o nosso poder está no agora e que, portanto, é fundamental que sejamos capazes de produzir dados e conhecimento de forma ágil, articulada, complementar e colaborativa, que nos oriente e contribua com a tomada de decisões.


E quando olhamos para um tema específico, como a ação da filantropia e do investimento social privado (ISP), a dinâmica se aplica de forma parecida a partir das suas nuances e especificidades.


Em março de 2020, quando entendemos que a pandemia havia chegado no Brasil, recebi o convite para coordenar a frente de ações emergenciais do GIFE e, assim, durante um ano acompanhei bem de perto a atuação da filantropia brasileira e da sociedade civil organizada de forma ampla, ao longo do primeiro ano de pandemia. O GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, reúne organizações de filantropia – ou investimento social privado (ISP) – sejam elas institutos ou fundações de origem familiar, empresarial ou independente ou empresas que atuam contribuindo de forma voluntária para resolver problemas coletivos. A organização, que atua fomentando o fortalecimento e a qualificação da filantropia e do ISP no Brasil por meio de estratégias que vão da produção de conhecimento à promoção de articulação, entendeu que tinha um papel fundamental a cumprir, já que o contexto de catástrofe humanitária que começava a se desenhar era em si um chamado à atuação do setor.


Ainda que parte da sociedade civil organizada, os atores filantrópicos ocupam um lugar muito especial do conjunto. Diferente da imensa maioria de organizações, a filantropia possui recursos financeiros próprios, com ampla – ainda que variada - liberdade para utilizá-los, além de um alto grau de poder e influência. Essa característica é determinante para entender o setor e sua relação com os demais agentes que atuam na esfera pública com o objetivo de endereçar desafios comuns. E na pandemia não foi diferente. No entanto, o contexto pandêmico e emergencial, assim como em todas as dimensões da existência, alterou a dinâmica de atuação da filantropia e do ISP no Brasil.


Como parte das iniciativas do Projeto Emergência Covid do GIFE, organizadas em 5 eixos de atuação, desenhamos uma frente dedicada a produzir conhecimento e análises sobre a atuação da filantropia e do ISP na pandemia.


Para essa frente construímos cinco ações principais: (1) o mapeamento e acesso a uma curadoria de publicações sobre a atuação emergencial da filantropia e do ISP na pandemia disponibilizadas na Sinapse, (2) uma plataforma de rubricas avaliativas para apoiar as organizações na avaliação da sua atuação emergencial, (3) uma pesquisa com dados gerais sobre a atuação das organizações de filantropia, (4) a produção de um livro com uma análise do GIFE sobre a resposta do setor e o impacto da pandemia nos seus modos de fazer e (5) a promoção de 5 estudos realizados por atores do setor que analisaram temas específicos e complementares à publicação que o GIFE assina. Todas elas podem ser acessadas na Sinapse, a biblioteca virtual do GIFE:



O conjunto de análises, ainda que sem poder predizer o futuro, nos dá pistas e aponta caminhos prioritários para o setor. Achados unânimes e outros complementares refletem as principais questões e possíveis respostas para uma ação mais estratégica, significativa e transformadora. A seguir, destaco dez pontos deste conjunto de conhecimento produzido em pouco mais de seis meses.


  1. 10 anos em 1: a amplitude e urgência da pandemia mudou a forma de fazer filantropia no Brasil (e no mundo), mas as mudanças observadas não foram inventadas ao longo da emergência. O que observamos foi uma aceleração de processos que já estavam em curso. A urgência do momento fez com que o setor ousasse colocar em prática, em tempo recorde, muitas reflexões já bem consolidadas, mas que ainda encontravam resistência para transformar-se em ação. Saímos da inércia do pensar para o fazer, o que nos abriu uma oportunidade de mudar práticas de forma mais perene.

  2. A potência e os limites: o reconhecimento da resposta fundamental e ágil da filantropia é unânime em todas as análises realizadas. Ao contrapor a ausência e omissão da resposta em âmbito governamental, em especial em nível federal, sua atuação ganhou mais destaque, visibilidade e relevância. A atuação da filantropia e da sociedade civil de forma ampla, em especial das organizações de base com toda a sua capacidade e resiliência, freou um colapso que, apesar da situação crítica, poderia ter sido ainda maior. Ao mesmo tempo, a experiência ao longo do ano também evidenciou os limites do setor e a construção de políticas públicas – em colaboração com todos os atores da esfera pública - como sendo a única via possível para de fato construir respostas estruturantes às causas mais profundas dos problemas.

  3. Para chegar na ponta é precisa estar e ser ponta: a base – os grupos, coletivos, lideranças, organizações dos territórios – foi, como talvez nunca antes, reconhecida como estrutura fundamental para fazer a ajuda chegar onde precisa chegar. Observou-se um fluxo maior de recursos para organizações de base, no entanto, houve uma concentração de doações para um grupo pequeno de organizações mais estruturadas, previamente conhecidas pelos investidores sociais e localizadas no Sudeste.

  4. A reinvenção da produção de conhecimento: muitas vezes a produção de conhecimento requer processos longos e complexos que dificultam a produção célere de informação de qualidade. No entanto, mais uma vez, a urgência da pandemia possibilitou que experimentássemos outras formas de produzir conhecimento, com destaque para: mapeamento em tempo real, sistematização colaborativa, dados compartilhados, transparência e acesso a informação. Ao mesmo tempo, a intensa produção de dados ao longo do ano apontou oportunidades para o melhor aproveitamento de informações existentes, por exemplo, padronizando a coleta de dados e melhor aproveitando recursos tecnológicos.

  5. A colaboração como método: há muito se fala sobre a importância e as vantagens da colaboração no fazer filantrópico, ou seja, sobre os processos colaborativos que envolvem o ato de doar. No entanto, a atuação isolada é historicamente o modo de fazer padrão da filantropia. Não por acaso, a colaboração tem sidos citada como um dos principais legados da pandemia para a atuação da filantropia. De fato, para alcançar seus objetivos, em especial de escala, mas em muitos casos também de agilidade (ainda que muitas vezes o tempo era citada como um obstáculo para uma atuação mais colaborativa), a colaboração foi ingrediente fundamental para os maiores casos de sucesso de respostas produzidas pela filantropia ao longo da pandemia e esperamos que este seja um caminha sem volta.

  6. Da doação emergencial à doação como parte da cultura: “nos tornamos mais doadores? ”. Essa pergunta ressoou repetidamente ao longo do último. É fato que a mobilização de doações no Brasil foi sem precedentes, mas o quanto esse envolvimento se traduzirá em uma mudança comportamental por parte dos brasileiros para além da emergência ainda é uma pergunta sem resposta. O que se pode afirmar é que a experiência de doação vivenciada na pandemia abre janelas para que o tema ganhe novos espaços na vida cotidiana.

  7. Empresas e sociedade: as empresas foram responsáveis por aproximadamente 85% das doações realizadas, sistematizadas pelo Monitor de Doações da ABCR. O setor privado experimentou - talvez pela primeira vez - um outro tipo de “competição”: a de quem doa mais. Esse movimento coincidiu e, ao mesmo tempo, deu tração para que a conversa sobre ESG* [ESS1] como componente importante daquilo que irá garantir a sustentabilidade e de uma empresa no médio e longo prazo.

  8. Confiar, inovar e arriscar: a necessidade de responder de forma rápida e trabalhando de modo mais cooperativo e colaborativo – seja com outros investidores, parceiros de implementação ou com organizações apoiadas - impôs uma necessidade de maior confiança, inovação e risco. Ao longo do último ano foi comum escutar de investidores sociais que haviam feito coisas que nunca tinham feito antes. Os processos de aprovação ganharam agilidade e a abertura para correr riscos foi claramente maior, pois muitas vezes era isso ou nada. E o resultado foi positivo. O movimento conjunto nessa direção contribuiu para aumentar a ousadia coletiva do setor e o papel das lideranças foi fundamental para que as decisões fossem tomadas de forma rápida.

  9. A sociedade civil como pilar fundamental da democracia: para além da pandemia, vivemos inúmeros outros desafios nos últimos anos no Brasil. Tudo isso junto iluminou mais uma vez a importância de uma sociedade civil organizada atuante e isso ganhou um reconhecimento público ampliado, inclusive nas narrativas produzidas pelos meios de comunicação.

  10. Honrar o ato primordial da filantropia: a doação e importância da ampliação do grantmaking no Brasil. Pela primeira vez o GIFE registrou o grantmaking como a estratégia de atuação mais citada, ultrapassando a execução de projetos próprios, que segundo a série histórica do Censo GIFE, sempre foi a principal forma de atuação. Esse dado é bastante simbólico para o desenvolvimento da filantropa e ISP brasileiro. Pela soma de muitos fatores já citados nos pontos anteriores, o papel da filantropia como fonte de recursos para sustentar uma sociedade civil forte, plural e diversa é cada vez mais fundamental e tem um enorme potencial de fazer crescer a força e a potência da ação cidadã. Essa consciência foi ampliada e ganhou força na pandemia. No entanto, temos um longo caminho por percorrer, pois além de muito espaço para crescer em volume, será necessário aprimorar as formas de fazer grantmaking para que de fato estejam a serviço do fortalecimento da sociedade civil- e não das necessidades do doador. Durante a pandemia, em muitos casos, os recursos apenas passaram pelas organizações, contribuindo muito pouco para a sua própria operação, sustentabilidade e fortalecimento.


Para se aprofundar nas conclusões que o conjunto de estudos revela, fica o convite para acessar cada uma das publicações e navegar nos estudos mapeados e na plataforma de rubricas avaliativas.


Apropriar-se e expandir essa reflexão é tarefa coletiva – tão urgente e necessária como tem sido a atuação da sociedade civil brasileira desde o início da pandemia.





[ESS1]* ESG é a sigla para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). O debate em torno do conceito de ESG aponta que as empresas com boas práticas nesses campos apresentam resultados melhores ao longo do tempo e que, portanto, cada vez mais esse será um importante critério de escolha dos investidores.



Erika Sanchez Saez é pesquisadora, autora do livro Filantropia Colaborativa, organizadora do livro Horizontes e Prioridades para Filantropia e Investimento Social no Brasil, membro do comitê coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação e Diretora executiva do Instituto ACP. Foi coordenadora geral do Projeto Emergência Covid do GIFE entre março de 2020 e março de 2021, do 11º Congresso GIFE, coordenadora geral e curadora da 1ª Mostra GIFE de Inovação Social e gerente de programas no GIFE.

180 visualizações0 comentário