Porteiras: empatia e filantropia comunitária na Baixada Maranhense

Por Diane Pereira Sousa*



O relógio é o céu. Às cinco da manhã Betinha inicia sua jornada. Um café no bule espraia o primeiro perfume do dia. Corpos ainda dormem naquele pequeno tijupá. No quintal, os galos começam a cantar: é um novo relógio aparecendo, o tempo neste pedaço de terra não é imperativo, ele fala baixo, é tranquilo e sucinto, como o caminhar do baixadeiro. Betinha é o próprio tempo. Ela nunca está só no caminho até a roça, companheiras de jornada se juntam à caminhada. Há cantos e causos variados, trocas de saberes, existe uma rede invisível cooperando; já existe nome para o que elas fazem, mas naquele pedaço de terra toda classificação não se sustenta, sempre faltará alguma palavra. Da ciência pouco, da sapiência tudo.


Não existem muros, o cocazinho é como se fosse um único quintal. Não é turístico, mas algumas coisas têm destaque: um pé de cajueiro que está ali desde sempre, casas de forno, rios, mato, muito mato. Nesse local, até o vento ensina. Na cidade grande existem portas, ali a sintonia vem das porteiras. Betinha ainda não sabe, mas sua força de trabalho está no núcleo de desenvolvimento orgânico daquele território, ela juntamente com DPreta, Jaila, Tanmoça, TanNeide, Natália, criaram a rede invisível da transformação. Estão há uma longa temporada organizando e alimentando a cadeia de oportunidade e produção que existe ali.


Há, dentro da comunidade, um olhar para a igualdade: a farinha que vai para DPreta, também vai para TanMoca; nas sombras que o pé de cajueiro produz, descansam as mãos do agora. Nada disso seria possível se elas não se permitissem ser comunidade. Não é o tijupá delas que as une, é o sentir com a outra.


Quando pensamos em ativos dentro da filantropia comunitária, estamos intimamente relacionando existências. Solidariedade define a práxis comunitária. É uma linha de busca ativa pela importância de ter o território e aqueles que pisam seu chão dentro do processo transformador. Não se trata apenas de reconhecer organizações de base comunitária como motores de uma filantropia, estamos dialogando sobre por que essas organizações fazem filantropia.


Um elefante será um elefante em qualquer lugar do mundo, mas uma comunidade não.

No cocazinho, solidariedade é o dia a dia, é como uma força precisa, as pessoas se construíram dessa forma, esse é um elemento para a construção do senso filantrópico, não é a ajuda por necessidade absoluta, é um ato de uma comum unidade em torno de um espaço ao qual nos sentimos pertencentes. A empatia eleva esse grau de pertencimento porque eu ultrapasso a cerca, eu não apenas estou no espaço com o outro, como também estou no outro.


A Baixada Maranhense é uma porteira com diferentes dimensões. Com gente, recurso, instituições, desigualdades e potencialidades. Essa porteira conecta e revela que todos por aqui, com ou sem uso da palavra, estão tocando o chão da filantropia comunitária.





* Superintendente do Instituto Comunitário Baixada Maranhense


Originalmente publicado em: https://cutt.ly/3fDj2AD

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