Doação e empatia em situações de emergência

Atualizado: Set 16

Vivemos um momento de emergência sem precedentes nas últimas décadas. A nossa arrogância humana de quem tudo sabe está diretamente ligada a um modelo socioeconômico equivocado. Esta sociedade se viu emparedada e encurralada (literalmente) por um vírus. O mundo de repente se viu cercado por uma ameaça, para muitos inesperada, de risco à vida. Infelizmente, em situações de calamidade, as pessoas mais vulneráveis sempre são as mais atingidas, justamente aquelas que sempre tiveram os seus diretos negados, que nunca  fizeram parte dos benefícios oferecidos aos privilegiados.


A pandemia nos mostra de forma escancarada o quanto estamos longe de atingir a igualdade e a justiça social, demonstrando sem lugar a dúvidas o grande número de pessoas que são invisíveis perante as políticas públicas e também para boa parte da nossa sociedade. Seria hipocrisia dizer que a sociedade foi pega de surpresa, pois a condição dessas populações mais afetadas pela Covid-19 sempre foi de total exclusão, abandono e negligência pelo poder público. Ainda, como se não bastasse a pandemia, o risco da fome aumentou exponencialmente para elas. A situação precária do sistema público de saúde, e até mesmo a falta de acesso a água potável em grande parte do país, fez acender um alerta e nos chamou a agir em favor da vida.


Neste momento, um dos grandes desafios é como fazer com que os recursos cheguem de maneira segura e rápida nas comunidades e grupos mais vulneráveis É imprescindível também provocar a reflexão sobre quais tipos de recursos estão sendo arrecadados e quanto disso realmente chega nessas localidades para benefício direto dessas comunidades.  Além de nos perguntarmos quais as condições e restrições impostas sobre esse recursos e se isso beneficia ou atrapalha o acesso dos mais necessitados a eles.



“Não é apenas uma doação, é um gesto de empatia.” A Casa Casa De Cultura Ilê Asé D’Osoguiã, de João Pessoa, Paraíba, recebeu apoio do Fundo Emergencial COVID-19 do Fundo Casa.


Como fazer com que o dinheiro, seja da filantropia e ou de doações diversas, possa fazer a diferença rapidamente nesse contexto complexo onde tudo está comprometido: a logística, a comunicação, o acesso aos grupos, a mobilização nos territórios. Quais as exigências, a checagem das informações e demais procedimentos operacionais se fazem necessários nesse cenário tão adverso? 


Nessa situação conhecer os territórios, ter uma rede de confiança estabelecida e entender os contextos culturais são procedimentos mais do que fundamentais para conseguir fazer o recurso chegar com a agilidade necessária para ajudar a salvar vidas. Salvar vidas em sua essência.


Além disso, um outro sentimento precisa invadir nossa razão: a empatia. Entender a importância dos apoios humanitários nesta situação e ter a flexibilidade necessária é o desafio a ser enfrentado com coragem, principalmente pelo campo da filantropia mais convencional, que tem mais resistência à flexibilidade.


O Fundo Casa exercitou todos esses sentidos quando abriu a Chamada de Projetos para Apoio aos Grupos de Base no Enfrentamento à COVID-19: a flexibilidade no tipo de apoio — não costumamos fazer apoios humanitários, mas nesse caso estávamos em posição estratégica absoluta de acesso aos territórios e não podíamos nos esquivar por mero incômodo e dificuldades burocráticas.  Também tivemos o apoio de uma imensa rede de confiança, que nos levou a uma leitura e compreensão do contexto das reais necessidades, e a forma mais eficaz de responder a elas. Não deixando de lado também a criatividade característica das nossas abordagens no campo, para encontrar soluções numa atitude de grande empatia.


Após um processo rápido de escuta aos grupos comunitários de nossa rede, e também de fundos parceiros, seguido de uma ampla discussão com nosso conselho — sabendo das urgências que estavam enfrentando as comunidades— abrimos uma chamada emergencial com recortes para as regiões Norte (Amazônia Legal) e Nordeste.

Decidimos priorizar essas regiões neste primeiro momento por dois motivos: nossos recursos eram limitados, e o acesso a recursos por grupos nessas regiões requer uma logística muito especial e complexa, que poucos estão preparados para fazer.

Nosso objetivo foi realizar todo o processo da chamada, análise, e aprovação, e ter os recursos liberados em 30 dias. E assim a chamada ficou aberta por 15 dias com as seguintes linhas de apoio:

  1. Projetos e ações que possibilitem a redução do impacto socioeconômico gerado pela crise da pandemia da COVID-19 – Propostas de até R$ 25.000,00

  2. Apoio ao combate, detecção e prevenção contra a pandemia da COVID-19 – Propostas de até R$ 20.000,00

  3. Apoio a garantias de direitos básicos e emergenciais – Propostas de até R$ 5.000,00

Recebemos um total de 526 Projetos de todos os estados listados na chamada.  Desses, 56 pedidos foram para linha 3 e 470 projetos para as linhas 1 e 2.


Estados Total de Projetos Recebidos

Região Norte - Amazônia Legal

Acre 5

Amazonas 34

Amapá 8

Mato Grosso 18

Maranhão 44

Pará 100

Rondônia 23

Roraima 16

Tocantins 14

Total Região Norte: 262


Região Nordeste

Alagoas 25

Bahia 94

Ceará 41

Paraíba 12

Pernambuco 40

Rio Grande do Norte 17

Sergipe 13

Piauí 22

Total Região Nordeste: 264

Total (Geral): 526

Foi uma seleção difícil, mas de acordo com o montante de recursos disponíveis conseguimos aprovar 129 projetos, sendo 69 da região Norte (Amazônia Legal) e 60 projetos da região Nordeste, totalizando R$ 2.148.841,13.


Para a seleção usamos entre outros, os seguintes critérios:

  • Grau de vulnerabilidade da comunidade diante dos impactos causados pela Covid19 – Aqui a atenção foi para as populações mais vulneráveis: indígenas que vivem perto de cidades, em áreas ainda não demarcadas, e em regiões de conflitos.  Também priorizamos comunidades quilombolas que se encontram em grande situação de vulnerabilidade.

  • Índice da Covid19 no Estado/Região – Consulta a dados oficiais, acompanhando a evolução dos casos, informações da mídia, e também obtidas por meio da nossa rede de apoiados. Lembrando que uma região pode estar prevista como um próximo foco de infecção e que as ações de prevenção são tão importantes quanto as de mitigação; e que a falta de estrutura de uma região para lidar com a pandemia também deve ser considerada. Foram consultados sites oficiais e observatórios da sociedade civil nas análises.

  • Nível de tensão e violência do território – Consideramos se as pessoas da organização estavam envolvidas em conflitos, se o território próximo da comunidade e onde o projeto seria desenvolvido estava em tensão ou conflito, e como a COVID-19 impacta esse cenário.

Tipologia das Organizações

Indígenas 28

Quilombolas 20

Pescadores 14

Extrativistas 20

Agricultores 11

Associações/ONGs 29

Coletivos/Movimentos 7

Total: 129

Entre recepção das propostas, inserção na base de dados, análise,, contratação e pagamentos contamos com a participação de 15 pessoas. Todo o processo envolveu uma dezena de reuniões entre a equipe.


Ainda apoiamos mais 4 projetos emergenciais sob demanda espontânea, sendo 132 projetos apoiados e um total de R$ 2.232.329,00 em doações diretas para a sociedade civil.

De onde vieram os recursos – Uma parte desses recursos veio de remanejamento de nosso próprio orçamento em curso. Entretanto a maior parte veio de nossos valiosos parceiros, sendo seis fundações internacionais e duas organizações nacionais.


Os próximos passos – Sabemos que este impacto estará presente na vida das comunidades por muito tempo. Faltam políticas públicas para recuperar e ajustar, sistemas que foram descontinuados, e os danos socioeconômicos provocados. Será necessário continuar apoiando os grupos na sua resiliência e investir em soluções. As pequenas e médias organizações da sociedade civil que atuam nos territórios apoiando as comunidades serão fundamentais neste processo e elas precisarão ser muito mais fortalecidas. Para os próximos meses, em curto prazo, nossa meta é aportar mais R$ 2 milhões de reais nas organizações com foco na soberania alimentar e fortalecimento das pequenas e médias organizações. Além disso, o Fundo Casa  prepara uma série de chamadas para o próximo período, a médio prazo (2020/2021), em temas diversos no enfoque da justiça socioambiental para apoiar em torno de 280 projetos, prevendo uma demanda muito maior até final de 2021.


O Fundo Casa já se prepara para esta nova etapa, onde as economias de subsistência, a soberania alimentar, e a resiliência serão imperativas, não só para as comunidades remotas e isoladas, mas para toda a humanidade.

Abaixo seguem alguns relatos encaminhados por alguns grupos após o recebimento dos recursos:

Associação de Preservação Ambiental da Comunidade Do Urupanã – APACU (Terra Santa – Pará) 


Jocinara Siqueira, Francisco Neto, Edno Lopes levam de canoa as sextas básicas até a comunidade de Urupanã.


A reação das famílias ao receberem as cestas foi algo inexplicável, foi alegria, supresa e alívio. Principalmente por ser uma ação da associação comunitária para as famílias de Urupanã, no sentido das pessoas entenderem que a associação conseguiu aprovação de um projeto coletivo de uma instituição de “fora” (Fundo Casa). Para nós da diretoria é muito gratificante porque nos fortalece internamente, os associados enxergam e valorizam ainda mais a associação e percebem que não estamos parados apesar da situação e estamos buscando alternativas para minimizar as dificuldades e nos proteger da pandemia.

Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembléia de Deus do Rio Ituxi – APADRIT (Lábrea – Amazonas)

Recebimento das cestas básicas na RESEX Ituxi.

A capacidade da Associação de agregar parcerias de forma ágil, realizando campanha utilizando as redes sociais. A Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembléia de Deus do Rio Ituxi – APADRIT se fez reconhecida como associação articulada em Lábrea e fora da cidade também, e as pessoas se sensibilizaram com a nossa causa e com a emergência do momento. Os associados perceberam a importância de uma associação que os representa. “Para a APADRIT a ação na Resex Ituxi contra o COVID-19 foi muito gratificante pois várias pessoas estão isoladas nos igarapés com medo da doença, encontramos as famílias sem nada de alimentos comprados no mercado. Eles estão muito agradecidos com esse grande apoio dos parceiros” – Silvério Barros Maciel, presidente da APADRIT.

Associação dos Moradores da Tapera e Miringaba (Caravelas – Bahia)

Comunidade pesqueira de Tapera e Miringaba recebem cestas básicas

O projeto ajudou a fortalecer a organização social com seus associados, pois no momento que estamos vivendo estamos enfrentando muitas dificuldades de nos reunirmos. Também auxiliou as famílias o acesso a alimentação e higiene, pois no contexto atual o território que vive da pesca de mariscos passa por uma enorme dificuldade de escoamento da produção. E com as compras realizadas no mercado local e em pequeno comércio auxiliou na economia que vem sendo muito abalada. Sendo assim o projeto veio em um momento difícil e ajudou a fortalecer o território em pequenas ações. Artigo de Cristina Orpheo, Diretora executiva do Fundo Casa Socioambiental, originalmente publicado em: http://www.casa.org.br/pt/2020/07/29/doacao-e-empatia-em-situacoes-de-emergencia/

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