Doação e empatia em situações de emergência

Vivemos um momento de emergência sem precedentes nas últimas décadas. A nossa arrogância humana de quem tudo sabe está diretamente ligada a um modelo socioeconômico equivocado. Esta sociedade se viu emparedada e encurralada (literalmente) por um vírus. O mundo de repente se viu cercado por uma ameaça, para muitos inesperada, de risco à vida. Infelizmente, em situações de calamidade, as pessoas mais vulneráveis sempre são as mais atingidas, justamente aquelas que sempre tiveram os seus diretos negados, que nunca  fizeram parte dos benefícios oferecidos aos privilegiados.


A pandemia nos mostra de forma escancarada o quanto estamos longe de atingir a igualdade e a justiça social, demonstrando sem lugar a dúvidas o grande número de pessoas que são invisíveis perante as políticas públicas e também para boa parte da nossa sociedade. Seria hipocrisia dizer que a sociedade foi pega de surpresa, pois a condição dessas populações mais afetadas pela Covid-19 sempre foi de total exclusão, abandono e negligência pelo poder público. Ainda, como se não bastasse a pandemia, o risco da fome aumentou exponencialmente para elas. A situação precária do sistema público de saúde, e até mesmo a falta de acesso a água potável em grande parte do país, fez acender um alerta e nos chamou a agir em favor da vida.


Neste momento, um dos grandes desafios é como fazer com que os recursos cheguem de maneira segura e rápida nas comunidades e grupos mais vulneráveis É imprescindível também provocar a reflexão sobre quais tipos de recursos estão sendo arrecadados e quanto disso realmente chega nessas localidades para benefício direto dessas comunidades.  Além de nos perguntarmos quais as condições e restrições impostas sobre esse recursos e se isso beneficia ou atrapalha o acesso dos mais necessitados a eles.



“Não é apenas uma doação, é um gesto de empatia.” A Casa Casa De Cultura Ilê Asé D’Osoguiã, de João Pessoa, Paraíba, recebeu apoio do Fundo Emergencial COVID-19 do Fundo Casa.


Como fazer com que o dinheiro, seja da filantropia e ou de doações diversas, possa fazer a diferença rapidamente nesse contexto complexo onde tudo está comprometido: a logística, a comunicação, o acesso aos grupos, a mobilização nos territórios. Quais as exigências, a checagem das informações e demais procedimentos operacionais se fazem necessários nesse cenário tão adverso? 


Nessa situação conhecer os territórios, ter uma rede de confiança estabelecida e entender os contextos culturais são procedimentos mais do que fundamentais para conseguir fazer o recurso chegar com a agilidade necessária para ajudar a salvar vidas. Salvar vidas em sua essência.


Além disso, um outro sentimento precisa invadir nossa razão: a empatia. Entender a importância dos apoios humanitários nesta situação e ter a flexibilidade necessária é o desafio a ser enfrentado com coragem, principalmente pelo campo da filantropia mais convencional, que tem mais resistência à flexibilidade.


O Fundo Casa exercitou todos esses sentidos quando abriu a Chamada de Projetos para Apoio aos Grupos de Base no Enfrentamento à COVID-19: a flexibilidade no tipo de apoio — não costumamos fazer apoios humanitários, mas nesse caso estávamos em posição estratégica absoluta de acesso aos territórios e não podíamos nos esquivar por mero incômodo e dificuldades burocráticas.  Também tivemos o apoio de uma imensa rede de confiança, que nos levou a uma leitura e compreensão do contexto das reais necessidades, e a forma mais eficaz de responder a elas. Não deixando de lado também a criatividade característica das nossas abordagens no campo, para encontrar soluções numa atitude de grande empatia.


Após um processo rápido de escuta aos grupos comunitários de nossa rede, e também de fundos parceiros, seguido de uma ampla discussão com nosso conselho — sabendo das urgências que estavam enfrentando as comunidades— abrimos uma chamada emergencial com recortes para as regiões Norte (Amazônia Legal) e Nordeste.

Decidimos priorizar essas regiões neste primeiro momento por dois motivos: nossos recursos eram limitados, e o acesso a recursos por grupos nessas regiões requer uma logística muito especial e complexa, que poucos estão preparados para fazer.

Nosso objetivo foi realizar todo o processo da chamada, análise, e aprovação, e ter os recursos liberados em 30 dias. E assim a chamada ficou aberta por 15 dias com as seguintes linhas de apoio:

  1. Projetos e ações que possibilitem a redução do impacto socioeconômico gerado pela crise da pandemia da COVID-19 – Propostas de até R$ 25.000,00

  2. Apoio ao combate, detecção e prevenção contra a pandemia da COVID-19 – Propostas de até R$ 20.000,00

  3. Apoio a garantias de direitos básicos e emergenciais – Propostas de até R$ 5.000,00

Recebemos um total de 526 Projetos de todos os estados listados na chamada.  Desses, 56 pedidos foram para linha 3 e 470 projetos para as linhas 1 e 2.


Estados Total de Projetos Recebidos

Região Norte - Amazônia Legal

Acre 5

Amazonas 34

Amapá 8

Mato Grosso 18

Maranhão 44

Pará 100

Rondônia 23

Roraima 16

Tocantins 14

Total Região Norte: 262


Região Nordeste

Alagoas 25

Bahia 94

Ceará 41

Paraíba 12

Pernambuco 40

Rio Grande do Norte 17

Sergipe 13

Piauí 22

Total Região Nordeste: 264

Total (Geral): 526

Foi uma seleção difícil, mas de acordo com o montante de recursos disponíveis conseguimos aprovar 129 projetos, sendo 69 da região Norte (Amazônia Legal) e 60 projetos da região Nordeste, totalizando R$ 2.148.841,13.


Para a seleção usamos entre outros, os seguintes critérios:

  • Grau de vulnerabilidade da comunidade diante dos impactos causados pela Covid19 – Aqui a atenção foi para as populações mais vulneráveis: indígenas que vivem perto de cidades, em áreas ainda não demarcadas, e em regiões de conflitos.  Também priorizamos comunidades quilombolas que se encontram em grande situação de vulnerabilidade.

  • Índice da Covid19 no Estado/Região – Consulta a dados oficiais, acompanhando a evolução dos casos, informações da mídia, e também obtidas por meio da nossa rede de apoiados. Lembrando que uma região pode estar prevista como um próximo foco de infecção e que as ações de prevenção são tão importantes quanto as de mitigação; e que a falta de estrutura de uma região para lidar com a pandemia também deve ser considerada. Foram consultados sites oficiais e observatórios da sociedade civil nas análises.

  • Nível de tensão e violência do território – Consideramos se as pessoas da organização estavam envolvidas em conflitos, se o território próximo da comunidade e onde o projeto seria desenvolvido estava em tensão ou conflito, e como a COVID-19 impacta esse cenário.

Tipologia das Organizações

Indígenas 28

Quilombolas 20

Pescadores 14

Extrativistas 20

Agricultores 11

Associações/ONGs 29

Coletivos/Movimentos 7

Total: 129

Entre recepção das propostas, inserção na base de dados, análise,, contratação e pagamentos contamos com a participação de 15 pessoas. Todo o processo envolveu uma dezena de reuniões entre a equipe.


Ainda apoiamos mais 4 projetos emergenciais sob demanda espontânea, sendo 132 projetos apoiados e um total de R$ 2.232.329,00 em doações diretas para a sociedade civil.

De onde vieram os recursos – Uma parte desses recursos veio de remanejamento de nosso próprio orçamento em curso. Entretanto a maior parte veio de nossos valiosos parceiros, sendo seis fundações internacionais e duas organizações nacionais.


Os próximos passos – Sabemos que este impacto estará presente na vida das comunidades por muito tempo. Faltam políticas públicas para recuperar e ajustar, sistemas que foram descontinuados, e os danos socioeconômicos provocados. Será necessário continuar apoiando os grupos na sua resiliência e investir em soluções. As pequenas e médias organizações da sociedade civil que atuam nos territórios apoiando as comunidades serão fundamentais neste processo e elas precisarão ser muito mais fortalecidas. Para os próximos meses, em curto prazo, nossa meta é aportar mais R$ 2 milhões de reais nas organizações com foco na soberania alimentar e fortalecimento das pequenas e médias organizações. Além disso, o Fundo Casa  prepara uma série de chamadas para o próximo período, a médio prazo (2020/2021), em temas diversos no enfoque da justiça socioambiental para apoiar em torno de 280 projetos, prevendo uma demanda muito maior até final de 2021.


O Fundo Casa já se prepara para esta nova etapa, onde as economias de subsistência, a soberania alimentar, e a resiliência serão imperativas, não só para as comunidades remotas e isoladas, mas para toda a humanidade.

Abaixo seguem alguns relatos encaminhados por alguns grupos após o recebimento dos recursos:

Associação de Preservação Ambiental da Comunidade Do Urupanã – APACU (Terra Santa – Pará) 


Jocinara Siqueira, Francisco Neto, Edno Lopes levam de canoa as sextas básicas até a comunidade de Urupanã.