“Dinheiro é poder, mas conhecimento também é poder"

Conheça o programa Doar para Transformar: Rede de Filantropia para a Justiça Social


Por Tarisai Jangara


Esta entrevista integra uma série de diálogos realizados pela Global Fund por Community Foundations com os principais parceiros do programa Doar para Transformar, desenvolvido com apoio da Cooperação Holandesa, que investirá €24 milhões para a sua implementação e terá uma duração de cinco anos. O Programa é implantado no Brasil, Burquina Fasso, Etiópia, Gana, Quênia, Moçambique, Palestina e Uganda, sendo liderado por um consórcio integrado por quatro organizações: a African Philanthropy Network, a Kenya Community Development Foundation (KCDF), a Global Fund Community Foundations (GFCF) e a Wilde Ganzen Foundation. A meta do Programa– que faz parte do programa ‘Poder das Vozes’ do governo holandês – é estimular as doações locais como forma de expressão da voz, participação cívica, solidariedade e dissidência de minorias políticas. O Doar para Transformar irá construir evidências em torno de novos pensamentos e abordagens que apoiam o desenvolvimento da filantropia comunitária.


Nesta entrevista, conversamos com a Coordenadora Executiva da Rede de Filantropia para a Justiça Social, Graciela Hopstein, e com a Assessora de Programas, Betina Sarue. A Rede tem como missão fortalecer as organizações da sociedade civil brasileiras que trabalham em prol dos direitos humanos, de igualdade racial, sexual, direitos socioambientais e com foco no desenvolvimento comunitário a partir de iniciativas voltadas à expansão da filantropia para a justiça social.


GFCF: Que cara tem hoje a filantropia comunitária no Brasil?

Graciela: A filantropia comunitária é uma abordagem que viabiliza a identificação de novas formas de fazer filantropia. No Brasil, falamos da tropicalização do modelo, como uma forma de reconhecer a sua relevância, implicando o reconhecimento de diversas experiências e atores que atuam no campo da filantropia antes, durante e depois do processo de colonização. A ideia é partir do reconhecimento de trajetórias e iniciativas históricas já existentes no campo. Essa mudança de paradigma vem nos permitindo enxergar o potencial que as comunidades e as minorias políticas têm de se organizar com base em seus próprios recursos e ativos, e de reconhecer o seu poder e a sua capacidade de resolver seus próprios problemas, atuando conforme as suas demandas e necessidades.


GFCF: Qual o significado da #ShiftThePower para vocês/sua organização?


Betina: A #ShiftThePower vem sendo integrada de forma orgânica no trabalho que fazemos com a Rede. Observamos a forma de organização das comunidades com enfoque interseccional no campo dos direitos humanos e na justiça social. Além disso, instituímos um programa que defende mudanças no ecossistema da filantropia no Brasil, especificamente com vistas a promover a pauta da justiça social e da filantropia comunitária, de forma a alavancar o apoio às ONGs e à sociedade civil que atuam com foco nas minorias políticas. Trata-se ainda de promover o acesso ao poder de maneira bastante estratégica.


Graciela: O conceito de #ShiftThePower é muito estratégico no campo da filantropia já que não temos o hábito de discutir questões ligadas ao poder. Precisamos mudar a noção de que qualquer pessoa que tem dinheiro tem poder, porque dinheiro não é o único elemento importante. Temos que reconhecer que as comunidades têm poder – o poder de se organizarem e responderem aos seus próprios desafios. Quando falamos de poder, devemos falar de forma mais ampla – dinheiro é, sim, poder, mas conhecimento também é poder. As comunidades são dotadas dos conhecimentos necessários para resolver seus próprios problemas. Temos que mudar a abordagem de entender o desenvolvimento como uma dinâmica de cima para baixo, criando soluções de baixo para cima. É importante olhar para o papel da sociedade civil na transformação de realidades e territórios de forma holística.


GFCF: De que forma o programa Doar para Transformar contribuirá para o avanço da filantropia comunitária ou da #ShiftThePower no Brasil?


Graciela: O programa Doar para Transformar vai ajudar a reforçar a nossa forma de atuação e a nossa área de programas. Vai impulsionar o trabalho que já estamos realizando de maneira mais estruturada dentro do ecossistema da filantropia. Embora o campo da filantropia mobilize muito dinheiro no Brasil – principalmente através de fundações familiares e empresariais – pouco dinheiro é destinado às organizações de base ou da sociedade civil. A nossa função é promover as causas e convencer os doadores brasileiros da importância de financiar as organizações de base e da sociedade civil, para efetivamente tratar as questões de justiça social e de direitos humanos.



Legenda da foto: A Rede realizou inúmeros Seminários, atraindo uma ampla gama de pessoas interessadas na exploração da filantropia comunitária e as suas variadas formas existentes no Brasil.


GFCF: De que forma o programa Doar para Transformar conseguirá incentivar os doadores / ONGs a transferir efetivamente mais poder e recursos para as organizações de base?


Betina: A nossa estratégia é avaliar o que realmente importa e destacar os impactos. Isso nos permite aprender com as comunidades e construir narrativas que destacam o impacto da filantropia comunitária e da filantropia para a justiça social, a fim de influenciar os doadores dentro dos ecossistemas filantrópicos.


GFCF: De que forma os programas assistenciais prejudicam as práticas locais de doação no Brasil e como o programa Doar para Transformar pode ajudar com isso?


Graciela: Precisamos reforçar a cultura da doação no Brasil. As doações sempre chegam em situações de catástrofe, mas é importante promover a prática de doações sustentáveis, de forma que isso seja permanentemente integrado à nossa cultura. Embora exista um ecossistema filantrópico consolidado no Brasil, os recursos destinados à garantia dos direitos humanos e da justiça social costumam vir do exterior. Temos que conscientizar as pessoas sobre a importância de doar para as organizações da sociedade civil como uma forma de fortalecer a democracia brasileira.



Entrevista realizada por: Tarisai Jangara, Especialista em Comunicações da GFCF.


Traduzido por: Dayse Boechat.


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