Confiança no centro da filantropia: doação de Mackenzie Scott reconhece trabalho dos fundos da RFJS

Atualizado: 8 de jun.

Por Mônica C. Ribeiro


Nesta terceira matéria sobre os 10 anos da Rede de Filantropia para a Justiça Social (RFJS), vamos abordar a doação feita pela filantropa norte-americana Mackenzie Scott, no valor de U$ 3,86 bilhões para 465 organizações sociais em diversos países do mundo. Destas, 15 organizações brasileiras foram selecionadas para receber doações, e dentre elas cinco são integrantes da RFJS – Fundo Brasil, Fundo Baobá, Fundo Casa Socioambiental, Fundo Elas+ e Redes da Maré.


Ao divulgar a doação e as organizações selecionadas, Mackenzie Scott descreveu em seu blog: “Quando nossa equipe de doadores se concentra em qualquer sistema em que as pessoas estão lutando, não assumimos que nós, ou qualquer outro grupo, possamos saber como corrigi-lo. Não defendemos políticas ou reformas específicas. Em vez disso, buscamos um portfólio de organizações que apoie a capacidade de todas as pessoas participarem das soluções. Isso significa um foco nas necessidades daqueles cujas vozes foram sub-representadas.”


Ana Valéria, superintendente do Fundo Brasil, avalia que a maneira como Scott faz as doações é muito ousada, moderna e diferenciada em relação ao que fazem os grandes filantropos norte-americanos, tendo como sistemática promover uma investigação sobre resultados promovidos por organizações e confiar nesses bons trabalhos.


“É uma forma completamente diferente de fazer, que revela uma vontade de realmente empoderar quem está recebendo o recurso. Essa doação chega com a mensagem de que ela viu o que essas organizações estão fazendo, gostou do trabalho e quer que elas continuem a fazer o que acham que deve ser feito. Isso é pensar totalmente fora da caixa. Espero que isso possa criar exemplo para outros filantropos. Transformar é colocar recurso nas mãos de quem está fazendo a coisa certa e confiar no trabalho das organizações.”


Ela também destaca o olhar de Scott para o Brasil e sua leitura de mundo: “O Brasil mostra-se, assim, um país relevante para o mundo, em especial por suas questões socioambientais. Ela [Scott] reconhece isso, faz escolhas dentro do Brasil, e dentre essas escolhas figuram cinco fundos de justiça social que integram a RFJS. Colocou recursos em organizações na ponta, mas também nos fundos, para capilarizar ainda mais o recurso. É uma visão excepcional do ponto de vista da leitura política que ela faz, de como o recurso pode efetivamente beneficiar e trazer transformação.”


Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá, destaca que o tipo de doação praticado por Scott eleva o patamar de entendimento sobre o conceito, o sentido e a prática da filantropia, na medida em que reconhece e respeita o conhecimento e a experiência das instituições que atuam na linha de frente, independentemente da sua função no ecossistema.


“O voto de confiança dado pela senhora Mackenzie Scott é tão importante quanto as cifras bilionárias que ela doou nos últimos anos. Essa doação representa o reconhecimento da seriedade e da competência com a qual as organizações brasileiras trabalham em prol das causas e dos propósitos que as orientam. Neste contexto, as doações que beneficiaram cinco instituições da Rede de Filantropia para a Justiça Social representam um forte indicador dos tipos de causas e das visões de futuro que estão mobilizando a vanguarda da filantropia no mundo.”


Para o Fundo Baobá, a doação de Scott é um ‘divisor de águas’ no processo para constituição de um endowment de R$ 250 milhões: “Será a partir deste patamar que o Fundo Baobá poderá ampliar a sua incidência programática e aumentar a capacidade de financiar, através dos dividendos resultantes de suas aplicações financeiras, iniciativas que enfrentem o ‘núcleo duro’ do racismo estrutural no Brasil”, define Giovanni.


Mudando a lógica padrão da filantropia


Amalia Fischer, coordenadora geral do Fundo Elas+ Doar para Transformar, reforça a importância da doação direta da filantropa e a confiança plena no trabalho das organizações selecionadas: “A lógica com que os fundos de justiça social e as fundações comunitárias doam é exatamente essa. É sair da lógica do pequeno projeto para apoiar a sustentabilidade das organizações. E por que apoiar a sustentabilidade? Para os fundos de justiça social isso é importante porque o que está se fortalecendo, ao mesmo tempo, é também a democracia do país e no mundo. É como se Mackenzie Scott estivesse fazendo uma homenagem a esses fundos e fundações, reconhecendo esse trabalho”.


Amalia destaca que o Fundo completa 22 anos de experiência com grantmaking neste ano, investindo no protagonismo de organizações, coletivos, grupos de mulheres e pessoas LBTI. Nesse sentido, ela pontua que o reconhecimento de Scott não vem apenas ao Elas+ Doar para Trasformar, mas também ao trabalho das organizações que recebem doações do fundo.


“É uma interligação. O recurso doado promove o nosso fortalecimento enquanto fundo, e isso fortalece também todas as organizações que apoiamos. É como um efeito cascata, no qual os recursos vão para onde devem ir e formamos uma rede positiva para todo mundo. Quando ela investe em nós e nos deixa livres para aplicar recursos em nossas estratégias, conhecimento, metodologias, enfim, dá um grande voto de confiança. A nossa missão é fazer uma filantropia dirigida às mulheres, especialmente àquelas que não têm acesso a recursos, que são mulheres negras, lésbicas, de povos originários, mulheres e homens trans. Scott nos deixa a liberdade de escolher como vamos cumprir nossa missão.”


Cristina Orphêo, diretora executiva do Fundo Casa Socioambiental, define a doação de Scott também como um ‘divisor de águas na filantropia’, que seleciona as organizações pelo tipo de trabalho realizado e não com base em programas e agendas próprios, e destaca, tal como Amalia Fischer, a liberdade de utilização dos recursos doados, o que contribui para atender de fato as necessidades que cada organização tem.


“É uma doadora sensível para a justiça social, que ousa no método e na forma de doar valores consideráveis para cada organização, reconhecendo que essas organizações sabem onde e como investir os recursos. Essa doação para as organizações brasileiras é quase um selo de excelência pelos trabalhos que realizam e, principalmente, pela causa, em especial no caso dos fundos que atuam com justiça socioambiental. É um reconhecimento aos trabalhos realizados pelos fundos que mesmo dentro do Brasil, estando muito próximo do campo da filantropia em geral, é difícil conseguir.”


Cristina aponta ainda que a doação de Scott representa o protagonismo dos fundos de justiça social na filantropia e, ao mesmo tempo, levanta questionamentos sobre as dificuldades da filantropia brasileira em geral em apoiar justiça socioambiental.


“Porque não aumentamos nossos apoios com recursos brasileiros. Ao contrário, diminuímos. Essa doação mostra como é possível fazer diferente. Esperamos que essa doação possa provocar uma reflexão do campo e que mais diálogos possam surgir sobre como aumentar a base de recursos que chega até as comunidades, em especial neste momento do Brasil de tantas perdas de direitos e de avanço da fome. Acreditamos que inovações precisam aparecer no campo da filantropia – novas formas de fazer, com menos apegos, menos concorrência e mais colaboração e confiança.”

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