Comunicando a filantropia de justiça social: a potência da atuação em rede

Por Camila Guedes


A filantropia de justiça social contribui para gerar transformação ao apoiar organizações da sociedade civil e movimentos sociais em suas lutas e na promoção do acesso a direitos, ponto fundamental para a consolidação da democracia.


Comunicar esses arranjos e traduzir seus potenciais resultados ao público é um desafio que traz à Rede de Filantropia para a Justiça Social (RFJS) uma reflexão permanente, em especial no que diz respeito a duas questões: promover incidência sobre o ecossistema filantrópico para ampliar recursos para essas organizações e movimentos e demonstrar a potência que esses grupos têm para promover a transformação em seus territórios e causas.


No ano em que a RFJS completa uma década de existência e atuação, uma nova estratégia de comunicação vem sendo desenvolvida coletiva e colaborativamente. Ao lado de uma Comunidade de Práticas voltada ao tema Comunicação e Narrativas, que envolve comunicadores/a das organizações membro, outros espaços têm sido criados para promover conexão e troca permanente e fortalecer os laços para uma real comunicação em rede.


Essa articulação torna mais forte a própria RFJS e contribui para dar visibilidade ao trabalho dos fundos que a integram, que apesar de terem pautas bastante definidas e que guardam diversidade, têm em comum a busca da garantia de direitos, o fortalecimento da sociedade civil e da democracia.


A escuta ativa, de modo a compreender as particularidades de cada organização membro e perceber o quanto se integram a esse quadro, tem marcado esse movimento da RFJS no ano de 2022, de modo a fortalecer uma rede de comunicação de impacto que tem se mostrado cada vez mais potente.


Essa escuta tem se traduzido em várias conexões, dentre elas uma série de matérias com comunicadore/as das organizações da RFJS, publicadas no blog da Rede, que demonstram desafios e oportunidades de comunicar a filantropia de justiça social.


Nesta segunda matéria da série com comunicadores/as da RFJS, trazemos os diferentes movimentos de comunicação existentes dentro das redes nas quais eles estão inseridos, e qual a importância dessa atuação em coletivo para o êxito da comunicação.


“Na RFJS, que tem organizações e fundos com diferentes perfis, é muito valioso que a gente consiga agregar esses olhares diversos, de diferentes atuações, para fortalecer a forma como nos comunicamos e o conteúdo que trazemos para as pessoas. Isso qualifica nosso trabalho e inclusive motiva a gente para pensar uma comunicação que seja realmente democrática e justa, porque ela vem com esses diversos olhares, inclusive das organizações de base,” analisa Méle Dornelas, comunicadora do Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN).


Para Angélica Basthi, comunicadora da Aliança entre Fundos, estar na RFJS é estratégico para potencializar a atuação da comunicação da Aliança: “A Rede de Filantropia para a Justiça Social é um espaço estratégico para a Aliança e para cada um destes fundos que a compõem, porque foi onde nasceu essa iniciativa. Para nós, fazer parte da RFJS e participar das iniciativas de comunicação que ela vem implementando com bastante sucesso é fundamental, porque potencializa a nossa ação, que é mostrar um novo modo de fazer filantropia, colaborativa.”


Para nós, fazer parte da RFJS e participar das iniciativas de comunicação que ela vem implementando com bastante sucesso é fundamental, porque potencializa a nossa ação, que é mostrar um novo modo de fazer filantropia, mais colaborativa. Angélica Basthi - Comunicadora da Aliança entre Fundos


“Estar dentro da RFJS é conseguir ter um fortalecimento institucional e também das pessoas que estão dentro da organização, para que essas pessoas possam fortalecer os processos de transformação que a organização tem de fazer nas comunidades e territórios em que a gente trabalha. Nesse contexto, a comunicação é imprescindível”, pontua Diane Sousa, presidenta da Fundação Baixada Maranhense.



Aliança entre fundos


Uma experiência bastante concreta de como a atuação em rede fortalece a comunicação da filantropia de justiça social é a Aliança entre Fundos, que surgiu como ação estratégica e inovadora no percurso de trocas e diálogos entre o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental sobre obstáculos e aprendizados forjados no fortalecimento da agenda por justiça social durante a pandemia da covid-19.


A Aliança propõe a atuação de uma filantropia colaborativa para a justiça social, e tem como meta promover maior aporte de recursos diretos para povos indígenas, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais mais vulnerabilizados pela pandemia.


“Essa atuação colaborativa é a essência e prática dessa iniciativa que é a Aliança. Ela é também o que colocamos como visão de futuro, nosso presente e nosso futuro. Somente a partir da ação colaborativa e em rede que a comunicação da Aliança é possível. Ela é uma experiência viva e expressa uma possibilidade real de transformação a partir de ações em conjunto. Estamos em uma época de coletivos de comunicação, mas a Aliança entre Fundos é algo mais ousado, pois traz essa perspectiva de ação colaborativa entre fundos e entre as comunicações que a compõem. Isso está sendo uma experiência incrível de vivenciar” analisa Angélica.


“Já participei de outras ações coletivas, mas essa está sendo diferenciada porque a gente percebe o quanto a comunicação tem realmente uma força, um potencial e alcance muito grande quando estamos juntos atuando nessa perspectiva colaborativa.”


Angélica destaca que a comunicação da Aliança atua em rede pela própria essência e natureza do arranjo entre os fundos que a compõem. São utilizados os canais das três organizações integrantes para divulgar as ações a partir de uma comunicação comum, em permanente alinhamento e conexão.


“Tudo o que produzimos é compartilhado. Quando usamos os canais institucionais como o site, nós também atuamos em rede. Nós temos uma página que faz referência a essa iniciativa nos sites dos três fundos. Estamos em diálogo permanente e atuando permanentemente em rede. Isso traz um resultado poderoso”, analisa.



Colaboração, escuta e construção coletiva


Colaboração é uma das palavras que mais encontramos ao longo dos depoimentos dos comunicadores/as. A força do trabalho produzido em conjunto com as demais organizações é transformadora: seja no contexto da RFJS, com fundos e fundações comunitárias que atuam no âmbito do fortalecimento da sociedade civil, seja diretamente com organizações apoiadas pelos membros.


“Fazemos nossa comunicação com a nossa rede na base do diálogo. Para esse diálogo acontecer, estamos sempre em reuniões periódicas, também em contato por meio de grupos em diferentes plataformas de comunicação, e temos também um pacto de apoio que é, por exemplo, ficar atentos às redes uns dos outros e aos conteúdos compartilhados, para que outras organizações consigam divulgar. Se trocam muitas informações sobre o que nós estamos fazendo e o que os outros podem ter interesse. Por exemplo, quer sejam editais, oportunidades ou movimentos no parlamento que outras organizações e redes que estão relacionadas com advocacy também acompanham, é importante ter conhecimento. Então também tem esse “segurar na mão”, no sentido de prover informação e dados,” diz Méle Dornelas, comunicadora do Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN).


Para além da informação, um movimento destacado por Méle nessas conexões em rede é “o pensar coletivamente estratégias, identificar o que cada organização tem em comum com outras em termos de objetivos - que são muito parecidos muitas vezes, especialmente quando se atua na mesma linha, no caso do ISPN, a socioambiental”.


Diane Sousa, presidenta do Instituto Baixada Maranhense, pontua que fortalecer a rede local é a estratégia que utilizam para que a comunicação seja feita de forma plena: “Atuamos com a comunicação comunitária para fortalecer as comunidades e o território em que a gente trabalha. Se trata de uma comunicação feita pelas pessoas para as pessoas, como, por exemplo, fazer um curso de fotografia na comunidade para que a própria comunidade gere produtos que retratem seu território, para que consigam comunicar sua comunidade com a estrutura que possuem. Nós gostamos de estar em rede. Temos um entendimento de que uma organização, para poder existir na forma como a nossa está estruturada, precisa de redes, recursos e pessoas. Para nós, estar em rede é um impulso, um local para impulsionar e dimensionar as ações do Baixada.”


Nós gostamos de estar em rede. Temos um entendimento de que uma organização, para poder existir na forma como a nossa está estruturada, precisa de redes, recursos e pessoas. Para nós, estar em rede é um impulso, um local para impulsionar e dimensionar as ações.Diane Sousa - presidenta da Fundação Baixada

Assim como no Instituto Baixada, Redes da Maré entende que utilizar espaços coletivos de troca é importante para potencializar as diferentes vozes e agendas: “Fazemos parte de algumas redes locais e com abrangência a outros lugares. Nós temos a frente de comunicação muito forte, porque entendemos que ela tem esse potencial de mostrar as potencialidades de territórios de favelas e periferias.” pontua Gisele Ribeiro, responsável pelo relacionamento institucional do Redes da Maré.


Atuar em rede, para Gisele, é fortalecer pautas e fomentar a articulação coletiva: "A atuação em rede é fundamental, e não é à toa que essa ideia está presente no nosso nome. É justamente isso que queremos produzir no território em que atuamos, a partir da interação e articulação com outros atores, seja de dentro e ou de fora desse território. Essa comunicação colaborativa é importante para fortalecer as pautas com as quais a gente trabalha, dando visibilidade a elas.”


Angélica destaca o valor dessa colaboração na troca de experiências, aprendizados e acolhimento: “Sou jornalista há 25 anos, e no jornalismo eu vivenciei várias fases da profissão. Quando me formei, existia muita competitividade, as pessoas brigavam pelas pautas e agora entramos em uma era de troca. Hoje, vemos como aquela leitura de antigamente era totalmente equivocada, de mercado, de competitividade, e entendemos que é no colaborativismo que superamos as dificuldades, ganhamos experiência, aprendemos e acolhemos o outro. Isso tem um ganho imensurável.”

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