Como a filantropia acontece no chão da comunidade com uma perspectiva de mulheres

Por Diane Pereira Sousa


As mãos do desenvolvimento local são femininas. Começo esse texto com essa afirmação, utilizo como base de fundamentação o Centro de Produção da comunidade de Itamatatiua.


Os convido para uma reflexão sobre como se constrói desenvolvimento em comunidade. Retiraremos nosso olhar sobre a forma como nos relacionamos nos grandes centros, dos carros rápidos, do sinal que abre e fecha, dos brainstorms, da busca por melhorar o futuro, e colocaremos em um lugar diferente, em que nossos corpos, horas, estruturas não costumam estar com frequência. E por estar me refiro a ação concreta de vivenciar. Vamos diretamente para Itamatatiua.


Esta comunidade localizada ao norte do Estado do Maranhão é o lugar de produção de cerâmicas feitas por um grupo de mulheres negras. Essa atividade ancestral e econômica acontece há 200 anos. Eis aqui o nosso primeiro dado, o centro de produção é portanto um negócio, 200 anos marca o planejamento a longo prazo de um processo de existência, mas não apenas isso, é também um demonstrativo concreto de como se constrói sustentabilidade a partir de processos participativos.

Dona Helo, recebeu das mãos de sua mãe o barro, a herança é mais profunda, ela recebeu o começo, o meio e começo, exatamente como nos diz Nego Bispo. A filha de dona Helo recebeu a oportunidade.


Aqui a filantropia comunitária acontece no ato. A dinâmica social determina que quanto mais eu me faço no coletivo mais chances eu tenho do coletivo aumentar. Vamos ao ponto principal deste texto, Dona Helo se junta com Mariusca e Joana, caminham até o centro de produção para começar o trabalho, não há necessidade de estarem todas, mas é exatamente o fato de estarem juntas que muda o chão da comunidade. Cada mulher que integra o centro de produção financia duas oportunidades, cada pessoa que recebe a oportunidade tem em suas mãos a chance de elevar o nível de desenvolvimento da comunidade. A barreira da sobrevivência foi

ultrapassada, Itamatatiua constrói sua história Produção da comunidade de Itamatatiua - Foto: Erika Ferreira

melhorando o agora.


A comunidade é circular, se orienta a partir de uma lógica solidária que só quem pode estabelecer são as mulheres. O combustível para transformar a realidade está em estabelecer que quando alguém alcança crescimento ele não está apenas mudando a si, mas toda estrutura que ele toca. Por isso as oportunidades são investimentos.


Os carros por aqui são pessoas que andam em parceria, os sinais estão sempre abertos, porque quem nasce na escassez sempre precisou criar brainstorms.


Mulheres no centro de produção de Itamatatiua - Foto: Erika Ferreira


No chão da comunidade há potencialidade e para acessá-las é necessário neste caso específico atravessar algumas portas. Podemos começar pela primeira: reconhecer como as mãos das mulheres criam sistemas estruturantes para que aquele mundo específico continue funcionando.


Por fim, para devolvê-los ao grande centro, aprende-se no dia a dia que o mais importante no âmbito da atuação é ser ponte e ajudar pessoas em suas travessias pessoais e coletivas. Quando elas atravessam, nós também passamos com elas.


 

Diane Pereira Sousa é maranhense da Baixada Maranhense. Professora. Mestra em Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento. Fellow Ashoka. Presidenta da Fundação Comunitária Baixada. Sócia Diretora do Instituto Formação. Estuda e pesquisa cotidianos, modelos de educação alternativa e juventude.Uma de suas especialidades em eventos nacionais e internacionais são as pontes poéticas(mediações) articulando sonhos e realidade.

Coordenou o livro “Você pode escutar minha Voz?”. Escreveu e coordenou a apostila “Direitos Humanos e Protagonismo Estudantil” pela Flacso. É coautora do livro “Sobre Nossas Avós – memória, resistência e ancestralidade”. Escreveu e coordenou os manuais Esportes Educativos para a cidadania e o desenvolvimento social. Escreveu e coordenou a sistematização Futebol 3 para crianças. Escreveu e coordenou o livro Futebol 3 - História do uso dessa metodologia no Brasil.


Imagem de Capa: Erika Ferreira

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