Aproximando a filantropia da cosmovisão indígena

Por Maíra P. Lacerda Krenak & Inimá P. Lacerda Krenak



Para este artigo ouvimos Ailton Krenak[i], importante liderança indígena reconhecida dentro e fora do Brasil, coordenador do Núcleo de Cultura Indígena e conselheiro do Fundo Casa socioambiental, sobre filantropia para povos indígenas. Talvez sua fala possa provocar reflexões para o tema:

No Brasil não há fundações com tradição histórica de doar. E as fundações que têm essa tradição fora, não criaram ainda fluxo com o Brasil, é como se o país ainda não tivesse se habilitado a uma relação com fundos filantrópicos. Estamos ainda no campo de ajudas externas, parece uma caridade, o que é muito subalterno, sem o respeito à integridade daquele que recebe o recurso.

O caso dos apoios na década de 90, que inclusive o Núcleo de Cultura Indígena recebeu, não era filantropia, eram programas específicos de proteção de florestas, preocupados com as mudanças climáticas, dentro do Global 2000. Mesmo assim, a tendência era submeter esses recursos à aprovação do governo local, para que esse dinheiro chegasse através do governo para as comunidades. Nós brigamos contra isso, para que tivéssemos voz própria, para que o recurso fosse direto aos povos, e isso não prevaleceu.

O foco agora é novamente a Amazônia, o controle do clima. Qual a motivação real de quem doa? Será que existe uma preocupação real com a sobrevivência e o bem-estar dessas populações?”

Para a maioria dos 305 povos indígenas reconhecidos no Brasil a dependência de ações, tecnologias e bens da sociedade de consumo já é grande, mesmo para os que ainda conseguem viver dentro de suas tradições. O combustível para os veículos e barcos que permitem a livre movimentação, placas solares que possibilitam comunicação, energia e água potável, roupas e utensílios que foram impostos. As comunidades hoje estão cercadas de fazendas de monocultura, pastos, garimpos, mineração, estradas, hidrelétricas, portos, hidrovias e ferrovias, dificultando cada vez mais o acesso ao alimento natural, ao medicamento tradicional, à água sem mercúrio ou pesticidas, à caça e aos peixes. Os povos em isolamento voluntário estão ainda mais ameaçados. Os ecossistemas e a vida submetidos a uma guerra cruel e injusta.

Para fazer frente a esse panorama trágico, os povos indígenas se organizam, criam novas estruturas para manter seu modo de vida e lutar por seus direitos. Jovens se capacitam, mulheres assumem responsabilidades e frentes de ação, associações e cooperativas buscam melhorias para as aldeias, geração de renda, educação e saúde mais de acordo com seu modo de vida. Novas estratégias para retomar o rumo de suas vidas a partir de suas reais necessidades e dentro de sua cosmovisão.

Durante muito tempo, projetos foram pensados e desenvolvidos dentro de aldeias indígenas, por governos, instituições, pessoas de boa vontade, mobilizando recursos e energias sem o envolvimento dessas comunidades, produzindo situações às vezes cômicas, outras vezes trágicas. Como o caso de uma comunidade no Mato Grosso que recebeu um aporte considerável para preparação de um pedaço de sua terra, antes ocupada pelo cerrado, para plantação de arroz. Muito dinheiro, maquinários, sementes, especialistas... Quando enfim a plantação estava no ponto de colheita, os indígenas se recusaram a colher o arroz e explicaram: não comemos arroz, as pacas e antas comem, então vão se alimentar do arroz, ficar gordinhas e aí vamos caçá-las. Tempo e recursos desperdiçados, o cerrado derrubado, uma série de equívocos que poderiam ter sido evitados com uma simples consulta. Um “fracasso” para quem investiu e ainda culpou os indígenas por sua incapacidade de se relacionar com a oportunidade que lhes havia sido “dada”.

Quando a comunidade faz o diagnóstico de suas necessidades, busca os recursos e aplica com independência e responsabilidade os aportes necessários, os resultados são outros, trazem satisfação, empoderamento e solução para os problemas.

É nesse sentido que nós buscamos colaborar com o Fundo Casa Socioambiental, uma organização brasileira que tem como missão promover a conservação e a sustentabilidade ambiental, a democracia e a justiça social mediante o apoio e fortalecimento de capacidades e iniciativas da sociedade civil na América do Sul.

Dentro dessa missão buscamos fazer apoios de forma a atender as demandas das comunidades de base incluindo a dos povos indígenas sempre respeitando formas de tomada de decisão e estratégias próprias, fortalecendo seus modos de estar no mundo, de adaptação frente às ameaças e buscando soluções para a nova realidade. Entre 2013 e 2020 foram apoiados 264 projetos de comunidades indígenas em toda Amazônia incluindo Brasil, Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, totalizando um investimento de 2.380.000,00 de dólares americanos.

Cada povo indígena, com seu idioma, tradições, história, tem uma forma diferente de estar no mundo, de se relacionar com a natureza e o cosmos de que são parte indissociável. Os sonhos são espaços fundamentais de relação com outras dimensões, outros seres, determinantes em muitas decisões. Assim como o conhecimento dos anciãos, as necessidades das crianças, o sofrimento dos animais ou das plantas, o humor das montanhas e dos rios. Todos elementos para se levar em conta na hora de pensar um projeto, de alterar o rumo de uma proposta que a princípio parecia boa, ou de abandonar um empreendimento que traria um resultado ruim para a comunidade.

Essa visão particular do mundo deve ser compreendida, respeitada, assimilada por qualquer indivíduo ou instituição que pretenda realizar iniciativas de apoio a povos tradicionais. A fórmula para se medir os resultados de um projeto não se esgota nos números, nas tabelas, na consolidação de um orçamento. O diálogo, a “reunião do coletivo em torno do fogo”, avaliando possibilidades e estratégias até o consenso, esse deveria ser o caminho, com aprendizado, flexibilidade, criatividade, ousadia, buscando novas tecnologias sociais e emocionais para enfrentamento desse modelo de gestão do planeta que só vem produzindo sua espoliação, envenenamento e morte.

Em seu modo tradicional de vida os povos originários têm soluções para uma relação harmoniosa e respeitosa com a teia da vida, talvez seja possível uma aproximação verdadeira com esses povos, colocando recursos, investimentos e novas tecnologias em parcerias que fortaleçam esse jeito de estar no mundo. Num movimento contrário ao da colonização imposta até hoje, que possa reverter as nuvens da destruição que encobrem o verdadeiro conhecimento e permitir o fluxo da vida.


Sobre as autoras

Maíra P. Lacerda é do povo Krenak, historiadora formada na Universidade de São Paulo – USP. Sua história de vida é de convivência permanente e trabalhos em parceria com povos indígenas. Trabalha na área de projetos do Fundo Casa socioambiental desde 2015, onde atualmente coordena o Programa Amazônia.

Inimá P. Lacerda é indígena do povo Krenak do Vale do Rio Doce. Cientista Social pela PUC-SP e gestora ambiental, tem vasta experiência na realização de projetos em parceria com comunidades indígenas. Organizadora dos livros ‘Histórias do começo e do fim do mundo: O contato do povo Paiter Suruí’ e ‘Aunaki Kuwamutü: Kuwamutü que criou o mundo e outras histórias do povo Mehinaku’, autora do capítulo: ‘O povo Xavante e os impactos do Projeto Jaburu’ na publicação ‘Novos paradigmas de produção e consumo’ do Instituo Pólis. Atualmente coordena o Programa Povos Indígenas do Fundo Casa Socioambiental.



[i] Ailton Krenak é uma liderança indígena, ambientalista e escritor brasileiro. Autor dos livros “O lugar onde a terra descansa” e do best seller “Ideias para adiar o fim do mundo”. Atuou na elaboração da constituição de 1988 quando ganhou grande visibilidade, após pintar o rosto de preto enquanto discursava para os deputados durante os debates da constituinte em 1987. Doutor honoris causa pela universidade Federal de juiz de Fora, Grão-cruz da Ordem do Mérito Cultural.


[Publicação para o Dia da Resistência Indígena na América Latina - 12 de outubro]


* Escrita realizada antes da pandemia no Brasil.

** Originalmente publicado em inglês na Alliance Magazine: https://www.alliancemagazine.org/feature/what-is-the-donors-true-motivation/


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