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Aliança entre Fundos: por uma outra filantropia colaborativa em construção no Brasil

Por Allyne Andrade e Silva, Angélica Basthi, Cristina Orpheo e Fernanda Lopes



Ainda que a colaboração seja uma prática antiga entre organizações filantrópicas, a ideia de uma "filantropia colaborativa" é relativamente nova. No Brasil, trata-se de um conceito ainda em construção. Por aqui, ele vem incentivando a criação de novos arranjos no campo da filantropia para justiça social.


No entanto, nenhuma dessas iniciativas experimentou uma ação ousada e inovadora como tem sido praticada pelo Fundo Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental no âmbito da Aliança entre Fundos, surgida em 2021.

Motivados pela pandemia da covid-19 e em consonância com as metas de ação colaborativa definidas no planejamento estratégico da Rede de Filantropia para a Justiça Social – agora Rede Comuá – os três Fundos se uniram em aliança. A iniciativa marca o surgimento de uma nova identidade vinculada ao compromisso com a filantropia pela justiça social, e também de um novo modo de agir institucional no campo da filantropia colaborativa no país.


A pandemia da covid-19 colocou todas as pessoas no mundo, inclusive no Brasil, diante de uma crise sanitária sem precedentes. Os agravantes sociais, econômicos, políticos impactaram de maneira diferenciada os grupos que já experimentavam contextos de vulnerabilidade. Foi a solidariedade que mobilizou a sociedade civil para apoiar as pessoas nas fases mais críticas da pandemia, em especial nos grandes centros urbanos do país. Isolados em contextos de difícil acesso, povos indígenas e comunidades quilombolas permaneceram sozinhos nos piores momentos da crise sanitária.


O Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental foram os primeiros a lançar, individualmente, editais emergenciais para apoiar esses grupos ainda em 2020. Foi neste cenário de solidariedade institucional com foco nessas populações mais invisibilizadas que surgiu a Aliança entre Fundos. A iniciativa era a materialização das conversas iniciadas no âmbito da Rede Comuá e definiu uma ação ousada e necessária diante de um cenário político conservador e complexo, agravado pela ascensão da extrema e pela pandemia do vírus SARS-CoV-2.


Havia uma conexão fundamental que potencializou a relação estabelecida entre o Fundo Baobá para Equidade Racial, o Fundo Brasil de Direitos Humanos e o Fundo Casa Socioambiental: o compromisso com a justiça social e com fortalecimento desta agenda no campo da filantropia no Brasil. Para esses fundos, os investimentos privados nacional e internacional devem cada vez mais contribuir para a promoção da justiça social com ênfase no enfrentamento de questões estruturais para o Brasil, tais como desigualdade de gênero e raça, as desproporcionalidades no enfrentamento das crises ambientais e as hierarquias socioambientais.


Em razão disso, após longas conversas – e com base na escuta feita nos territórios – os fundos elegeram três temas cruciais para orientar a atuação da Aliança que surgia : defesa de direitos, resiliência comunitária e sustentabilidade econômica das famílias e soberania alimentar das populações mais vulneráveis no enfrentamento da pandemia da Covid-19. Esses temas são estratégicos para a garantia e ampliação da dignidade e promoção de condições de igualdade, com ênfase nos grupos mais vulneráveis da pirâmide social brasileira.



Governança conjunta, singularidades respeitadas


A Aliança entre Fundos é resultado do processo de compartilhamento do que cada fundo havia implementado nos seus editais emergenciais. Essas trocas entre os fundos forjaram algo mais profundo no campo da filantropia para a justiça social. Na Aliança entre Fundos, embora a governança seja coletiva e a distribuição dos recursos seja conjunta, cada fundo preserva as suas singularidades nas relações estabelecidas nos territórios.


Os três fundos que compõem a Aliança entre Fundos têm envidado esforços conjuntos para a captação de recursos. O resultado foi um aporte inicial de R$ 2,5 milhões, distribuídos em diferentes editais específicos para quilombolas e indígenas. Além disso, os fundos têm experimentado uma governança onde praticam a harmonização de questões diagnósticas, valorizam as singularidades da relação de cada fundo com os seus grantees e realizam o monitoramento, avaliação e a reunião dos aprendizados de forma coletiva.


A inovação tem gerado impactos surpreendentes nos territórios indígenas e quilombolas se comparados ao modelo operacional praticado pelas instituições filantrópicas no Brasil. Em geral, as ações seguem desarticuladas, carecem de uma coordenação alinhada e atuam sem uma visão mais ampla e coletiva para potencializar os propósitos em comum. As ações praticadas pela Aliança entre Fundos buscam superar esses pontos. Cada fundo atua num território específico eliminando, portanto, a sobreposição de instituições num território comum. As trocas e aprendizados são compartilhados, o que otimiza recursos e potencializa resultados.


Esses referenciais também qualificam o relacionamento com os grantees, pois atuar a partir deste modo transformador proposto pela Aliança entre Fundos tem favorecido diretamente os territórios. Os projetos beneficiados têm experimentado novos arranjos comprometidos com a promoção do protagonismo comunitário e com a injeção de recursos nos territórios que mais necessitam de apoio. As soluções são criadas a partir das vivências de cada realidade e, por isso, são as comunidades que assumem o poder de decisão e de direcionamento das ações locais.


Esta diretriz orienta o olhar diferenciado dos Fundos em aliança para os grupos que já enfrentavam condições de agravamento dos seus direitos antes da COVID-19. Neste contexto, a filantropia colaborativa da Aliança entre Fundos tem demonstrado que o acesso ao recurso financeiro é necessário, mas não é o suficiente. O protagonismo local e o poder de decisão – sobre qual a solução viável para superar os problemas gerados pelas violações dos direitos – pertencem às pessoas que atuam na resposta comunitária. Com isso, apoiamos pessoas que estão na linha de frente do enfrentamento das questões estruturais de desigualdades, e contribuímos para a promoção do acesso aos direitos e à condição de cidadania.



Transformação social como desafio


A confiança mútua e a transparência têm forjado a base das relações construídas no âmbito da Aliança entre Fundos. Aprofundar os laços de confiança e legitimar cada vez mais a transparência junto às comunidades quilombolas e povos indígenas vêm se consolidando como o modo mais eficaz de praticar a filantropia orientada para a transformação social. A prática inaugurou um modelo de governança conjunta comprometida 100% com essa transformação.


Confiança e transparência têm sido igualmente fortalecidas nas relações entre os fundos que compõem a Aliança e também no relacionamento com os financiadores que apoiam a iniciativa. A prática colaborativa, que respeita as singularidades, potencializa as ações coletivas, alinha as estratégias em busca da transformação social e, ademais, fortalece as capacidades institucionais de cada fundo.


Além disso, a Aliança entre Fundos propiciou uma oportunidade histórica para os fundos que a compõem: oferecer editais exclusivos para quilombolas e indígenas. Embora cada fundo já apoiasse esses grupos, nunca na história haviam oferecido recursos específicos para esses grupos tradicionais.


Três editais independentes lançados no âmbito da Aliança chamaram a atenção de 358 organizações comunitárias em todo o país (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste) que inscreveram seus projetos. Deste total, 78 foram selecionados e recebem desde o início de 2022 recursos por meio do Fundo Baobá para Equidade Racial, Fundo Brasil de Direitos Humanos e Fundo Casa Socioambiental. A maior concentração de projetos aprovados no âmbito da Aliança está no Nordeste, região que, apesar de exibir uma concentração de pobreza significativa e menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), tem uma sociedade civil pulsante e potente.


O apoio não se resume à doação dos recursos. Os três Fundos disponibilizaram suas redes sociais para ecoar as vozes das comunidades. As principais narrativas – defesa do território, enfrentamento ao agronegócio, ampliação de práticas agroecológicas, segurança e soberania alimentar, empoderamento das mulheres, formação de jovens lideranças, enfrentamento da devastação da Amazônia, dentre outros – têm sido disseminadas semanalmente pelos fundos em suas redes sociais.


Recentemente, a Aliança entre Fundos organizou uma formação sobre comunicação envolvendo todos os projetos apoiados, liderada pelo Coletivo de Comunicação Mídia Índia e Coletivo de Comunicação da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos). A atividade fomentou trocas de experiências, ofereceu dicas de ferramentas e apresentou saberes sobre os variados modos de comunicação para serem aplicados nos territórios quilombolas e indígenas, fortalecendo potências locais. Além de promover o aprendizado, a ação motivou a formação de novas redes de apoio, ampliando olhares e abordagens, e fortaleceu a construção de outras narrativas produzidas pelos próprios projetos.


Dessa maneira, a Aliança entre Fundos tece novos arranjos que atuam de forma inovadora e eficiente nos processos para a transformação social em prol da justiça social. Uma das metas dos três fundos em aliança é convocar o próprio campo da filantropia a atuar na construção de novos arranjos comprometidos com o enfrentamento real das questões estruturais que impedem o desenvolvimento pleno da sociedade brasileira – com ênfase nas desigualdades sociais, raciais e ambientais.


Agir e estimular intervenções que, de fato, tenham como foco atuar nas causas das desigualdades estruturais é um desafio permanente para a Aliança entre Fundos e para a prática da filantropia no Brasil. A Aliança entre Fundos é uma iniciativa real e concreta que propõe uma outra filantropia colaborativa em construção para o país.



 

Fernanda Lopes - Diretora de Programa do Fundo Baobá para Equidade Racial. Bióloga, doutora em saúde pública, ativista antirracista.


Allyne Andrade e Silva - Superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos Advogada, é mestre e doutora em direito pela USP.


Cristina Orpheo - Diretora Executiva do Fundo Casa Socioambiental. Administradora, tem pós-graduação em gestão de projetos sociais, terceiro setor e gestão ambiental.


Angélica BasthiConsultora da Aliança entre Fundos. Jornalista e mestra em comunicação e cultura pela UFRJ.


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