15 anos fazendo Grantmaking e Filantropia Comunitária

Atualizado: Nov 17

Por Cristina Orpheo - Diretora Executiva do Fundo Casa Socioambiental

Vivemos em um planeta conectado. Aquilo que acontece em nossas comunidades, seja na cidade, no campo ou floresta, pode refletir em todos os territórios e afetar a vida dos seres que aqui habitam.


É direito de todos participarem ativamente das tomadas de decisão que envolvem os seus territórios. Também é direito de todos buscarem meios para se viver bem, de uma forma que respeite o modo tradicional de vida, assim como os ecossistemas ao redor, sempre exercendo a defesa de seus direitos. Na maior parte das vezes, isso não é assim tão simples, mas é o caminho para a construção de uma sociedade justa e de paz. Isso é democracia! Uma sociedade civil fortalecida, atenta e participativa é sinal de uma democracia consolidada. Vivemos no Brasil uma jovem democracia e, portanto, vulnerável em diversos aspectos.



Em janeiro de 2005, nascia o Fundo Casa Socioambiental, com o claro objetivo de fortalecer processos democráticos e promover a justiça socioambiental por meio de financiamento a projetos e do fortalecimento de capacidades de grupos de base comunitária. Não se pode falar em justiça social sem falar na democratização do acesso aos recursos da filantropia. Construir meios para que os recursos possam ser acessados por coletivos, movimentos, redes ou pequenas associações, seguindo a legislação em vigor e buscando padrões de boas práticas de gestão financeira é o desafio e o compromisso assumido pelo Fundo Casa. Possibilitar que o recurso da filantropia chegue aos atores mais distantes, aqueles invisíveis, ou pelo menos inacessíveis aos olhos da  filantropia tradicional.


Em 2019, o Fundo Casa, com 1.706 iniciativas apoiadas e R$ 25.243.860,32 (US$ 9.021.755,12), contratou a especialista em avaliação Graciela Hopstein para realizar uma ampla avaliação na sua área Programática de Apoio a Projetos, e assim, compreender melhor os resultados obtidos ao longo dessa longa história.

A avaliação resultou em uma profunda radiografia sobre:

  • o perfil dos grupos que apoiamos

  • a localização destes grupos

  • as principais atividades financiadas nesse período

  • os impactos gerados por estas iniciativas



Para chegar a esses resultados, foi realizado um amplo processo de análises de relatórios internos, assim como de entrevistas com uma grande diversidade de atores, desde os fundadores até financiadores, parceiros, grupos apoiados, equipe e coordenações dos distintos programas.


O resultado foi incrível! Entre diversos apontamentos, o estudo mostrou que os temas mais apoiados foram:

  • desenvolvimento de capacidades - indicado por 88% dos grupos;

  • debates e articulações com diversos atores - indicado por 76% dos grupos;

  • articulação com políticas públicas - indicado por 63% dos grupos;

  • participação em processos de tomada de decisão - indicado por 56% dos grupos;

  • proteção/conservação do território - indicado por 54% dos grupos.



Clique aqui para ler a publicação Nossa História em Números


O estudo apontou uma forte e intrínseca conexão dos temas socioambientais com os direitos humanos: 70% dos grupos apoiados atuam no âmbito dos direitos humanos; 65% com questões de gênero; 60% com redução da pobreza e conservação da biodiversidade, e 55% com a conexão direta entre direitos humanos e conservação ambiental.



A avaliação indicou também que os recursos doados pelo Fundo Casa Socioambiental não são o único meio de financiamento das organizações e grupos que apoiamos, mas que os atores mobilizam recursos das próprias comunidades, oferecem seu tempo voluntário, dentre outras formas de apoio. Alguns também conseguem acessar patrocínios e outros investimentos externos. Mesmo assim,  vimos que, em 39% dos casos, o Fundo Casa foi o primeiro apoiador externo.  Sabemos que temos um papel essencial no sentido de visibilizar essas iniciativas para que possam atrair novos recursos. Para os que já são um pouco mais experientes, vimos também que suas principais fontes de recursos são doações de terceiros, principalmente fundos locais, e, em menor medida, fundações privadas nacionais e internacionais.


A avaliação reconheceu também alguns "patrimônios" que o Fundo Casa construiu ao longos dos 15 anos de atuação:

  • Forte atuação em rede - O trabalho desenvolvido pelo Fundo Casa está conectado com as redes que existem nos territórios e baseado em relações de confiança estabelecidas com os grupos locais e movimentos socioambientais. Isso proporciona um modelo horizontal nos relacionamentos e nos processos de doação.

  • Metodologia assertiva - Todo o processo de seleção, aprovação e monitoramento dos projetos conta com uma grande rede colaborativa nos territórios, o que potencializa de forma exponencial nossa capilaridade e alcance aos grupos mais distantes.

  • Foco em doações – O Fundo Casa chega a mais de 70% em doações diretas para grupos comunitários em alguns dos anos avaliados. Isso comprova nossa atuação a partir de uma metodologia que propicia custos operacionais bastante reduzidos, enquanto privilegia as atividades relacionadas com a sua missão de doador.

  • Fortalecimento de Capacidades - Ações de Fortalecimento de Capacidades desenvolvidas junto aos grupos são consideradas estratégicas e complementares aos apoios.

  • Protagonismo das comunidades - A atuação está baseada no reconhecimento das comunidades como um sujeito político, protagonista dos processos de transformação local.

  • Inovação e escuta - O apoio a temas pioneiros, e o instinto particular em reconhecer demandas e necessidades das comunidades, são outros grandes ativos do Fundo Casa, mencionados por diversos atores.

O Fundo Casa integra uma categoria de fundos e fundações comunitárias, também denominadas organizações doadoras (grantmakers), que apoiam diversas iniciativas nas áreas de justiça social, direitos humanos e cidadania. Por não estar preso ao convencional, esses fundos e fundações comunitárias podem ser fontes de inovação e ousadia. Por financiarem temas pioneiros e de grande visão de futuro, além de propiciar a discussão e o diálogo, viabilizam importantes inovações nas soluções sociais e na inspiração de políticas públicas altamente benéficas para grupos e comunidades.



Com este diagnóstico e suas revelações, esperamos que a nossa experiência contribua para o campo da filantropia como um todo, revelando o trabalho de centenas de grupos comunitários que constroem um mundo melhor. Mais do que tudo, queremos que essa história contada em números, que demonstra impactos positivos irrefutáveis, inspire outros atores do campo da filantropia para que considerem abordagens similares. Apoiar ações lideradas pelas comunidades mais vulneráveis às injustiças sociais e à destruição ambiental fortalece suas vozes.  Investir nos verdadeiros protagonistas é o caminho mais curto para concretizar as transformações que queremos ver no mundo.


Convidamos todos a conhecerem a publicação Nossa História em Números.


Boa leitura!






Artigo publicado originalmente em: https://casa.org.br/15-anos-fazendo-grantmaking-e-filantropia-comunitaria/

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